Ricardo Preto, o idealista
Os olhos de Ricardo ganham ainda mais luz junto à enorme janela do seu ateliê nas Olaias. A cave toda branca parece suspensa na moldura de verde que entra pela sala, natureza inesperada nas traseiras de prédios soturnos. Parecemos descer no alçapão de Alice para uma suave nuvem de conforto. Na ampla secretária estão velas, revistas e os brincos da última estação; Ricardo serve-nos um chá de jasmim e está feliz. Ali, a sua silhueta recortada na paisagem, mesmo ao lado da sala de corte e costura, imagina coleções que rumam às Filipinas. É um designer de ateliê, mas hoje com uma disciplina de produção, uma visão de mercado e um público do mundo.
"Quero desenhar prêt-à-porter", não ser um designer de festa."
Cresceu em Brejos de Azeitão, numa "quinta que era o meu mundo". Recorda as horas esquecidas em que desenhava bonecas que depois recortava, "cada uma tinha uma caixa com o seu guarda-roupa e os acessórios", que depois oferecia às amigas, e às filhas das amigas dos seus pais: "Adorava vê-las a brincar com as minhas coisas." A mãe trazia-o a Lisboa, quando vinha às galerias do Ritz, "o meu sítio preferido", ou arranjar o cabelo à boutique Ayer, e ele via-se rodeado pelas mulheres mais viajadas da altura. "Eu ia lá era ver a roupa", ri-se, "e à noite deitava-me com um sorriso de orelha a orelha. Aos 8 anos, pedi à minha mãe para me comprar a Vogue".
Ainda vacilou para as Artes-Plásticas, mas estudou Arquitetura, "o mais seguro", sorri. Na verdade, a sua paixão sempre foi Moda: "Tudo o que tem a ver com Moda me preenche", diz. Por isso, e porque sempre teve jeito para pegar em coisas e transformá-las, já leva 25 anos de styling, vitrinismo, visual merchandising, fardas (para o Museu Paula Rego em Cascais e agora para o hotel do Bairro Alto para onde desenhou "peças intemporais inspiradas na arquitectura e nas cores de Lisboa") e guarda-roupa para, entre outros, o coreógrafo Rui Horta ("é como se fizesse um desfile de image-makers") - e, acima de tudo, há uma década que o seguimos na ModaLisboa e agora no Portugal Fashion. "Aprendi tudo o que podia aprender com a indústria do Norte", conta, "fui ter com várias pessoas e encontrei uma que me organizou o trabalho. Hoje, dos cardemos das minhas coleções, sai tudo". Ao mesmo tempo, esteve na Áustria e percebeu que, "se voltasse, já conseguiria fazer negócio. O que quero: ver a minha roupa, em nome próprio, noutros países".
Tudo começou a acontecer em julho de 2015, quando foi chamado a Nova Iorque para um trabalho nas Filipinas, na Rustan, líder das department stores naquele país. Foi escolhido, ele, um inglês e um americano, para desenhar para todo o mercado asiático: linhas para mulher e homem e, num exclusivo, a U uma coleção-cápsula de assinatura, assim como os acessórios de ambas. Olhamos à volta e as paredes nuas são interrompidas por um enorme moodboard forrado de papelinhos, tecidos, anotações. "Fechamos-nos aqui, eu e a minha equipa, e é genial!" Já entregou a sua terceira "leva" de coleções, produz seis em seis meses. "É muito intenso", concorda, mas toda aquela energia o acende.
Está em cinco department stores nas Filipinas, em 25 pontos de venda, numa nova escala: "Agora posso ser livre criativamente", diz. Nos primeiros seis meses, já está no top de vendas. "A marca foi muito bem aceite. Nos primeiros tempos, estava tão feliz que me caíam lágrimas de comoção a meio do dia."
Numa conversa com Paula Rego, esta perguntou-lhe: "Trabalha quantas horas?" "O dia todo", respondeu. "Faz bem, só assim é que um artista consegue", disse-lhe a artista. Ricardo já não acredita no talento incompreendido, mas não se esquece que viveu anos neste ateliê. Aponta para o canto onde dormia: "tinha um Sommer todo branco, com um edredão e quatro almofadas grandes", sorri. "E guardava a roupa aqui", um armário antigo belíssimo que ocupa uma parede inteira. "Era um puto impagável." Ricardo começou, aos 29 anos, a trabalhar para Dino Alves ("Ainda o trato por mestre, foi a primeira pessoa que me explicou o mecanismo da Moda, e me fez deslumbrar") e Osvaldo Martins, ao mesmo tempo que fazia montras e produções de Moda. Viveu para o Bairro Alto, onde se "enturmou" com a cena artística e boémia, e conheceu João Romão com quem relançou, ao lado de Dino, Luís Pereira, Isabel Branco e Mário Matos Ribeiro, as Manobras de Maio- a sua primeira plataforma para apresentar uma coleção, e o embrião do que veio a ser depois a ModaLisboa (onde começou a desfilar em 2006). "Na altura, estava tão preocupado em fazer silhuetas Ricardo Preto que me esquecia de fazer bolsos nas peças!", conta.
Do que mais gosta é de ver uma mulher a passear um vestido seu, sejam as musas Cláudia Efe, Beatriz Batarda, Dalila Rodrigues, Isabel Abreu ou Maria João Pinho, ou anónimas. Como em pequeno, adora ver as suas bonecas nas mãos certas. "Adoro mulheres inteligentes e hiperfemininas, para mim é o topo da Beleza." Mas não acredita na idolatria, nem perde tempo com celebridades ("Ainda percebo uma Lady Gaga, mas não uma Kardashian.") "A mulher é muito inspiradora para mim, da postura corporal, da beleza, do lado dark (e até macabro)…
O ser humano é o expoente máximo. Não posso deixar de gostar de pessoas." Ricardo Preto é um homem-leão que admira a grandeza da frontalidade, mas numa sociedade politicamente correta, aprendeu a tornar-se mais reservado. "É um balanço que a vida nos traz. Mas continuo a acreditar no mundo."
De vez em quando dá aulas numa universidade de Varsóvia, e da última vez falou na rapidez da Moda. "Tens de acompanhar esta máquina, por isso tempo é o maior luxo do século XXI." E o que faz para sacudir o stress? "Adoro correr, é tão viciaste; tanto quanto o sexo", ri-se. Mas também faz a caminhada anual, sozinho durante três dias, 50 quilómetros por dia até Fátima ("mas podia ir a Sobral de Monte Agraço, é o caminho que conta"): "Para estar comigo, analiso e sinto a vida plena. Humildade é a palavra que peço, e volto sempre um homem mais centrado. "Tem um projecto a longo prazo para a Ásia, que depois seguirá para outros continentes, "Não posso dizer mais… só que é um caminho iluminado." Olhamos lá para fora os dois e temos cavalos a pastar. "Hoje trabalho tanto quanto trabalhava, mas consigo sentar-me e refletir, é tudo mais pensado e editado. E, sim, é claro que o sucesso me atrai, mas vou sempre pelo que me inspira, estou muito perdoa minha essência." Pausa. "Mas quando vejo um colar meu na Vogue, o meu desfile, uma entrevista, lembro-me sempre, mas sempre, do princípio e como foi importante chegar aqui. E ser uma pessoa de bem com a vida."

VOGUE Portugal Magazine, March 2017 Issue

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